rubel

teu olho quando me olha

tua pele quando me toca

teu gosto na minha boca

tua mão onde quiser

você me bagunça,

mulher

 

tudo parece fora do lugar

 

e

ainda assim

me sinto

no lugar  certo.

 

 

 

 


8

Mira,
ela tinha mar
nos olhos
– descobriu quando viu
gente
navegando


aquariana

ela é
passado, hoje
amanhã, presente
agora talvez seja futuro
faz isso
porque é dona do seu
próprio tempo


grampos de madeira

às vezes fico achando que poetas são aquelas gentes que se deram conta das suas fragilidades e resolveram estendê-las no varal num dia de sol


treze

Acordei
tudo parecia bonito

as casas de alvenaria
seus quintais verdes
e grades

na escola as crianças chegavam de carro
banho tomado, celulares caros
pra ligar quando a aula acabar
ali não havia bala da pm que
mais mata
a mesma que levou Maria Eduarda

a rua bem cuidada pela chuva que lhe banhô,
paralelepípedos bem alinhados
havia saneamento básico
nunca vi enchente
ali

a padaria estava cheia de pessoas que podiam comprar pão
nada muito diferente
tudo parecia feliz naquele pedaço de lugar

mas
no meio daquela calmaria forjada
pensei se naquela casa uma mulher apanhava
se fora da padaria havia gente
com fome
talvez
a rua límpida fosse uma pequena mostra
da sujeira mundial

hoje é domingo
e talvez seja o dia oficial das coisas tristes
e mesmo que não fosse
felicidade disfarçada não serve pra nada
enquanto há gente sem teto
quero felicidade como direito
e não exceção num canto bonito de um bairro
que ônibus nunca chega,

indiferença é palavra de classe
e não é a minha


aiá

Às vezes sinto que posso durar algumas horas, e me assusto, tem um bucado de verdade nisso. Uma vez acordei e senti como se nunca fosse morrer, era estranho minha mente caducar tão cedo, talvez fosse um sinal pra ir me acostumando daqui uns anos. Ser um pouco louca é meio que se sentir preparada pra tudo, mesmo sabendo que é tudo invenção de poeta


coragem.

Coragem é poesia miúda. Mora na distância entre um medo e outro. Vem e vai embora, nunca fica. Perambular é seu ofício de palavra ligeira. Coragem podia ter nome de saudade, daquele tipo de gente que visita e você não quer que vá embora. Coragem podia ser abraço ou presente embrulhado – que a gente dá pra quem se gosta. Eu gosto da coragem porque não é propriedade privada de ninguém. Coragem é o sobrenome da minha classe, a mesma de Maria de 6 anos que fica sozinha em casa pra mãe trabalhar. Nesse mundo de buracos, creches são depósitos contados e contas correntes seguem sua correnteza sendo abastadas com merendas roubadas. Um dia pedi muito pra coragem vir, esperei, esperei até me dar conta que ela tava sempre ali: me esperando. Pensei muito na coragem esses dias, e fiquei comigo. Ontem, antes de dormir, minha vó falou sobre essa palavra. Sua intimidade com a coragem é vista nas feridas da pele de agricultora nortista. Por que às vezes a coragem falta? Falta mudar a maneira de pensar. A coragem não falta. O que falta é gente pra se ter coragem. Ela está por aí, nos esperando.